quinta-feira, 20 de agosto de 2009

"NOUS VOYONS TOUTES CHOSES EN DIEU = NÓS VEMOS TODAS AS COISAS EM DEUS"?

A filosofia cartesiana desenvolveu-se sobretudo no século XVIII, século áureo da literatura francesa, e dentre os discípulos mais célebres de Descartes encontra-se Nicolau Malebranche, nascido em Paris, em 1638, entrando jovem ainda para a Congregação do Oratório, onde lendo obras cartesianas descobre sua vocação filosófica. Faleceu em 1715 após uma discussão calorosa com o idealista Berkeley.
A doutrina filosófica mais conhecida de Malebranche é o chamado Ontologismo. Este ensina que todo o pensamento corresponde à realidade, pois do contrário não pensaríamos nada e esta realidade é a idéia da coisa pensada, entendendo idéia aqui no sentido platônico de tipo eterno das coisas. Ora, não vendo nós as coisas senão nas suas idéias, e não podendo essas idéias estar senão na inteligência divina, segue-se que vemos tudo em Deus: "Nous voyons toutes choses en Dieu". Quanto a Deus conhecêmo-lo não por uma idéia, mas direta e imediatamente em si mesmo. O homem possui, portanto, visão imediata e intuitiva de Deus e, nesta visão direta de Deus, conhece todos os seres. Mesmo que todos os corpos desaparecessem, vê-los-íamos ainda do mesmo modo, nos seus arquétipos eternos e só pela revelação podemos ter certeza da existência do universo sensível.
Salta aos olhos a analogia desta teoria com a de Platão, pois ambas supõem a intuição direta das idéias em Deus, com a diferença apenas de que Platão admitia que contemplamos estas idéias na essência divina numa vida anterior à atual, e Malebranche afirma que o fazemos durante esta vida.
RAZÃO tem Malebranche ao afirmar que a experiência sensível é impotente para nos fornecer as idéias e os princícpios necessários; que as verdades eternas têm o fundamento último em Deus; que a razão humana não pode alcançá-las, senão enquanto é participação criada da inteligência divina.
ERRA, porém, ao afirmar que Deus é o objeto direto e único do nosso conhecimento, afirmação que está em aberta oposição com os dados imediatos e evidentes da consciência, privados de fundamento, portanto. Assim como não é no sol mas pelo sol que percebemos os objetos visíveis, assim não é em Deus, mas por sua iluminação que alcançamos a verdade das coisas. Não descemos de Deus às criaturas, como supõe Malebranche, mas subimos das criaturas a Deus.
Esta teoria leva naturalmente ao panteísmo, pois se nossas idéias são a essência divina diretamente contemplada, quando as identificamos, nos juízos afirmativos, com os seres finitos e indivíduos, não confundimos, porventura, numa identificação panteísta, as realidades contingentes com o Ser necessário?
Paulo Barbosa.

domingo, 9 de agosto de 2009

O RACIONALISMO NA HISTÓRIA E SUA REFUTAÇÃO

No trabalho "Características da Filosofia Moderna", vimos que um dos caracteres desta filosofia é o racionalismo. Esta teoria significa em teologia a negação de toda verdade revelada por Deus e em filosofia um sistema que, desprezando os sentidos, admite a razão como fonte e faculdade superior do conhecimento.
Estudaremos aqui o Racionalismo na História como método de se adquirir o saber, ou seja, como meio gnosiológico de acesso ao ser, à realidade, e veremos que é encontrado já na Grécia antiga, porém estabelecido de maneira formal na Idade Moderna por Descartes e seguido por muitos filósofos e homens de ciência, apesar de modificado por cada sequaz de acordo com a síntese proposta.
O Racionalismo Gnosiológico ou Epistemológico faz sua aparição já na Grécia pré-cristã, quando Parmênides de Eléia (530-460 a.C.) afirmou que a experiência só gera erros e que somente a razão conduz o sábio à verdade. Este filósofo, partindo do princípio de identidade, deduz matematicamente uma metafísica monista e fixista na imobilidade absoluta do ser, negando toda mudança e todo movimento, como fenômenos de ilusão dos sentidos.
O estoicismo, mais propriamente, a moral estóica é racionalista também, pois busca na moral e na ética o mesmo fixismo imobilista da metafísica de Parmênides: o homem insensível ao prazer e a dor chegará à felicidade, que reside na virtude, e esta, na razão. As paixões são más, pois cegam, enquanto a razão ilumina, e a razão é Deus. Viver, pois, segundo a razão é ser de alguma maneira Deus.
Porém, onde a doutrina racionalista se formaliza é na Filosofia Moderna, a partir de Descartes (1596-1650), particularmente, a partir da tese comum a todos os racionalismos, a tese do inatismo das idéias, que para Descartes eram as únicas formalmente claras e distintas, arrastando desta maneira, aos racionalistas posteriores, à concepção gnosiológico-matemática do universo.
Descartes formula seu racionalismo com as seguintes teses: o inatismo das idéias e o critério das idéias claras e distintas; a concepção matemática da ciência; a grande estima do puramente conceptual e a desestima do individual e concreto, particularmente o material; a fé absoluta na transparência racional do ser; o método de análise e síntese. Não admite Descartes, em realidade, mais idéias claras e distintas do que as inatas, e essa claridade e distinção aparece já implicada no 'cogito, ergo sum, penso, logo existo'. Portanto, todo conhecimento que venha por outros caminhos - experiência, autoridade, revelação divina - aparecerá obscuro e confuso, e daí, rejeitável.
O problema gnosiológico-racionalista se agudiza mais pelo caráter geométrico-matemático do sistema cartesiano, que parte do Cogito como um 'princípio' simples e absoluto, a partir do qual se deve reconstruir o conjunto do mundo gnosiológico por rígida dedução lógica. Por 'dedução lógica' entende Descartes tudo aquilo que se conclui necessarimente de outras verdades conhecidas com certeza. Não há, para o pai da filosofia moderna, outros meios de conhecer a realidade a não ser a intuição e a dedução.
Espinosa (1632-1677), em seu "Tractatus de intellectus emendatione" (1677), leva ao extremo o geometrismo racionalista de Descartes, ensinando ser o conhecimento matemático (2+3=5) o modo de conhecer perfeito e certo, e partindo das leis cartesianas sustenta que a inteligência não procede em suas idéias determinada pelos objetos da percepção externa. O 'ordo geometricus spinozano' é um processo rigidamente escalonado de definições, proposições, axiomas e demonstrações, do qual devem ser deduzidas estritamente as conclusões. Fora dessas conclusões assim deduzidas, não é possível falar de um conhecimento verdadeiro e certo. A origem do conhecimento verdadeiro não são as percepções sensíveis, mas sim as idéias mesmas e as definições, idéias e definições estas que estão contidas na Idéia das idéias; desta maneira, para Espinosa, nosso espírito é uma imagem da natureza pela dedução racional de todas as suas idéias da Idéia, fonte de todas elas.
Leibniz (1646-1716) é mais um afilhado do racionalismo cartesiano com sua Monadologia transformada em teoria do conhecimento. Para Leibniz, o espírito é essencialmente pensamento e conhecimento, e por isso as mônadas, ou seja, os elementos inextensos e ativos que compõem os corpos e que é espiritual, não podem ser irracionais, mas sim um núcleo do racionalismo. Ainda que no espírito existam três conteúdos: os sentidos externos, o sentido comum/imaginação e o entendimento, só o entendimento possui os conteúdos puramente inteligíveis ou os conceitos puros. Esses conceitos puros, para Leibniz, são manejados rigorosamente segundo o método do conhecimento perfeito, isto é, o matemático, e o processo é abstrair do inatismo a forma perfeita do conhecimento certo, da ciência. Por esse motivo, nosso conhecimento é exatamente recordar (Platão); os sentidos, mais que verdade, nos proporcionam erros, e nosso espírito se livra da matéria e da sensibilidade no conhecimento puro das verdades eternas, dos inteligíveis puros.
O empirismo, para Leibniz, nunca nos fornecerá uma verdade necessária e eterna, pois é uma soma de casos e exemplos que, se bem podem nos proporcionar 'verdades de fato', jamais poderá nos fornecer uma 'verdade de razão', uma 'verdade verdadeira'. As verdades eternas e universais só nos podem vir matematicamente pelas 'verdades de razão'; por isso uma prova autêntica só se alcança pelas intuições racionais dos princípios internos. Leibniz não nega o fato do conhecimento dos sentidos, mas esse conhecimento não é verdadeiro, e os sentidos não são causa do conhecimento, mas sempre ocasião, ainda que necessária.
Emanuel Kant (1724-1804) é também racionalista, mas ligado ao empirismo de Hume, matiza e, às vezes, fundamenta o racionalismo, abrindo as portas à sua forma mais extremada, o idealismo. Absorve Kant totalmente a matéria do conhecimento na forma pura, que nasce não de um inatismo, rejeitado pelo filósofo de Koenigsberg, mas de um a priori transcendental, eficaz substituto das idéias inatas. Eleva o racionalismo, desta maneira, ao absoluto, tendo em Hegel sua culminância, contruindo uma cosmovisão total puramente a priori por simples jogo dialético das idéias.
Resumindo o até aqui visto, depreende-se que as teses fundamentais do Racionalismo são:
1. O inatismo, defendido por Descartes, fortalecido por Leibniz e rejeitado por Kant, que o substitui pelo a priori transcendental;
2. Esta tese ensina ser a inteligência inata em si mesma, quer dizer, não necessita de impactos externos para conhecer, bastando-lhe refletir sobre si mesma para conceber o ser e o pensamento; a experiência, por sua vez, nunca nos fornecerá a verdade, porque não nos pode dar a necessidade de uma coisa;
3. O conhecimento certo e verdadeiro só pode ser expresso por meio de conteúdos universais e necessários, que de nenhuma maneira podem ser derivados da experiência, já que ou são inatos ou a priori;
4. Logo, a ciência nasce de uma 'matematização' gnosiológica do conhecimento, onde o caos da experiência está sempre em luta com esta matematização que há de originar-se da mesma inteligência, da suficiência gnosiológica do entendimento humano. A ciência, desta maneira, é um saber sistemático fundado em um conjunto de relações necessárias, e que, portanto, deve ser obra da razão, ou seja, construção a priori.
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REFUTA-SE o Racionalismo provando que todos os seus argumentos são falhos, incompletos por uma parte, mesmo quando é verdade que pode iluminar zonas do conhecimento deixadas em profunda obscuridade pelo empirismo.
O inatismo, ainda que a priori não haja nenhuma razão que o demonstre absurdo, é uma afirmação que deve ser demonstrada a posteriori. O Racionalismo apóia-se no inatismo-postulado ou chega à conclusão do mesmo partindo de afirmações não provadas, como Leibniz, por exemplo, que fundava-o na impossibilidade de ação transitiva de uma substância sobre outra, e logicamente o entendimento teria que bastar-se a si mesmo por meio do inatismo. Mas, onde está provada ou como se pode provar essa impossibilidade? Simplesmente se afirma dogmaticamente.
Supõe o Racionalismo que o entendimento não transcende ao conhecimento sensível. Da mesma maneira que o conhecimento sensível no empirismo não se coaduna com o conhecimento intelectual, no racionalismo, o conhecimento intelectual não se baseia no sensível. Mas tudo isso se afirma e se supõe, pois, analisando as duas teorias, não justificam-se semelhantes conclusões. A realidade gnosiológica é que a inteligência, os conceitos do entendimento, transcendem a experiência, a ilumina, a enquadra gnosiológicamente, fazendo que seja verdadeira experiência, pela qual o homem conhece coisas, o que é impossível somente com a pura sensação. A experiência nos fornece fatos, mas apoiada em princípios que supõem raciocínios, sendo ela como fonte gnosiológica a síntese da sensação e intelecção.
Outro postulado do Racionalismo é ser a única fonte do saber o espírito, a inteligência humana, já que é uma atividade que estabelece relações. Mas donde se prova que a experiência não estabelece também relações gnosiológicas concretas? O exemplo é claro no caso de uma audição musical, em que as relações sensoriais auditivas levam ao conhecimento de uma obra determinada, com tudo o que essa determinação possui de conhecimentos gnosiológicos.
Tão pouco prova o Racionalismo a tese de que a inteligência é inata em si mesma, isto é, que só lhe basta a reflexão para obter as idéias. Isso, como vimos acima, deve ser provado necessariamente a posteriori. O que é fato é que um ser humano desprovido de sensação está incapacitado para refletir, sua inteligência jamais despertaria para uma vida consciente gnosiológica.
A metodologia racionalista também é falha e errônea. É um fato de experiência que a experiência só nos fornece fatos; ora, isto não se deduz de nenhum princípio nem se demonstra: é um fato. Como então o aceita o racionalismo? Ou se aceita o fato de experiência, e então a experiência colabora gnosiológicamente na estruturação racional, ou não se aceita, e então a inutilidade gnosiológica da experiência é um simples a priori, sem justificação possível.
Donde se deduz que o método racionalista se funda em um a priori para demonstrar outro a priori. Este método encaixa-se bem em uma hipótese matemática, que é a estrutura mental do racionalismo, mas é impossível dentro de uma verdadeira Gnosiologia.
Paulo Barbosa.

sábado, 8 de agosto de 2009

CARACTERÍSTICAS DA FILOSOFIA MODERNA

Filosofia moderna é aquela que se desenvolveu durante os séculos XV, XVI, XVII e XVIII, tendo seu início no Renascimento e se estendendo até Emanuel Kant.
Esta filosofia possui algumas características que são consequências da perda de contato com as grandes sínteses surgidas no século XIII, sendo as principais as seguintes:
1. Individualismo: quer dizer, a tendência a descuidar da tradição para acentuar o caráter pessoal do próprio pensamento. A filosofia medieval, caída em descrédito, é comumente ignorada ou conhecida superficialmente. Os novos filósofos não crêem que valha a pena obter conhecimentos profundos acerca de uma doutrina que todos consideram superada. Daqui a tendência a construir cada um uma síntese total desde os fundamentos, e daqui também a multiplicidade de sistemas, aliás contraditórios entre si. A atitude de Descartes, como a de Bacon e a de Kant, é a de começar desde o princípio, refazer o todo, ser iniciadores.
Nasce desta maneira uma alteração do conceito de verdade filosófica que se contamina com o de
2. Originalidade: contaminação não declarada, mas real. Concebe-se a originalidade mais como novidade que como 're-pensamento', penetração e desenvolvimento progressivo de um núcleo já discutido e aceito. A filosofia tende, deste modo, a apresentar-se como uma revelação, uma manifestação da individualidade de cada filósofo, fracionando-se nas várias 'visões de mundo', condicionadas pela capacidade engenhosa de cada personagem e de cada nacionalidade. Parece que se perde o conceito mesmo de verdade e de filosofia como patrimônio necessariamente universal e susceptível, portanto, de graduais aperfeiçoamentos, para transformá-lo no conceito artístico de criação original.
A originalidade da filosofia traz consigo outro caráter a mais
3. A liberdade de procedimento: não somente no sentido de independência da doutrina revelada, mas também no sentido de falta de preocupação demonstrativa; as obras filosóficas dos tempos modernos têm uma forma expositiva e, frequentemente, mais que demonstrar, sugerem; mais que persuadir, sugestionam. Isto vai ligado, em parte, também, com o abandono da forma silogística e em geral com o descuido dos procedimentos formais: a escolástica decadente havia abusado deles, a filosofia moderna não os usa.
Outros dintintivos da filosofia moderna são a crescente tendência a fazer da razão não somente o tribunal supremo, mas também a característica peculiar do homem; sua separação completa da teologia, sendo-lhe muitas vezes até mesmo hostil; o abandono da língua latina, substituída pelas línguas vulgares; a multiplicação dos centros de cultura devido a quebra da unidade doutrinária: a cismundanidade, ou seja, o objeto de estudo passa a ser preponderantemente o mundo de cá, dos homens, abandonando quase por completo a transmundanidade tão presente na filosofia realista; daí, a atenção voltada primordialmente para a Natureza, levando deste modo ao triunfo do ponto de vista do quantitativo e do mensurável.
De tudo isso pode-se inferir que o significado, a validade das diversas sínteses da filosofia moderna não está na sua integridade de síntese, mas somente naquelas doutrinas parciais e naqueles aspectos também parciais que constituem, de fato, não um abandono, mas um estudo mais profundo e um desenvolvimento de elementos que podem enriquecer as grandes linhas da síntese filosófica realista, objetiva, verdadeira.
Paulo Barbosa.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A ADMIRAÇÃO: CAUSA GENÉTICA DA FILOSOFIA - E DA CIÊNCIA - NO HOMEM

É sentença comum em Platão e Aristóteles que a Filosofia nasceu ocasionalmente da admiração, e com razão ensinaram isso, pois a admiração surge no homem quando este está em presença de algum fato estranho, insólito, novo ou simplesmente grande, de que ignora-se inteiramente a causa ou não a alcança facilmente; é resultante, pois, da mescla de conhecimento e ignorância. Sucede, no entanto, que no princípio admira-se poucas coisas, muito manifestas e particulares, porém, com o passar do tempo, começa-se a admirar muitas coisas, mais ocultas e universais, e finalmente chega-se até às mais apartadas dos sentidos e mais universais de todas, como ensina acertadamente Santo Tomás de Aquino no seguinte texto:
"Tanto os que filosofaram no princípio, como os que seguiram depois filosofando, começaram por admirar-se de alguma coisa. Mas de maneira distinta aqueles e estes, porque
1. os que filosofaram em um princípio, se admiravam de poucas coisas, a saber, das que estão mais à vista, e buscavam a causa delas; mas
2. os que filosofaram mais tarde, como passaram pouco a pouco do conhecimento das coisas manifestas à inquisição das ocultas, começaram a investigar coisas maiores e mais escondidas, por exemplo, as propriedades da Lua, seus eclipses e suas fases, que viam variar com acerto as diversas posições daquela com respeito ao Sol; e de parecida maneira se colocaram a investigar as propriedades do Sol, seus eclipses, seus movimentos e seu tamanho; e em geral, as propriedades de todos os astros, suas magnitudes, sua ordenação e outras coisas semelhantes; até que chegaram a perguntar pela origem de todo o Universo, do qual diziam uns que se deviam à casualidade, outros ao entendimento e outros ao amor" (I Metaph. lect. 3, nº 54).
Obervemos neste texto a belíssima gradação do processo cognitivo, que também se encontra no texto de Aristóteles, pois as propriedades da Lua são mais manifestas, por serem mais frequentes e facilmente podem ser conhecidas por todos, enquanto as propriedades do Sol são mais raras, ainda que mais admiráveis, e todavia, mais raras ainda são, ou assim parece, as propriedades dos astros. Por último, termina-se ascendendo desde as partes à consideração do todo no Universo. Mediante isso vê-se como Aristóteles e Santo Tomás ensinavam a Filosofia filosofando.
Juan Luis de Vives, pensador espanhol do século XVI, diz: "A novidade engendra a admiração e esta, enquanto a consideração da mente se detém nela durante certo tempo, estimula a busca e a investigação" ("De instrumento probabilitatis liber unus, t. III, pag. 82).
Desta maneira, vê-se que o movimento pelo qual a Filosofia se produz no homem, começa com o conhecimento sensível e imperfeito, de algum fenômeno ou fato, grande e raro, como, por exemplo, um eclipse do Sol ou da Lua, ao qual movimento segue-se certa deleitação imperfeita, ainda que cheia de doçura. Imediatamente a essa deleitação, a razão percebe que existe uma causa magna daquele fato, e a esta percepção segue-se um veemente impulso da vontade de buscar e conhecer essa causa. Ordena, pois, a vontade ao entendimento que investigue essa causa, e uma vez que este a alcança plena e perfeitamente, experimenta uma plena e perfeita deleitação, descansando mui docemente na contemplação da causa.
Esquematicamente:
I - O movimento em que a Filosofia consiste começa:
A) Por parte da potência cognoscitiva, na percepção de algum fato sensível, o qual,
a) sob a razão de sensível, é apreendido pelo sentido, e
b) sob a razão de fato, é alcançado de imediato pelo entendimento, e
B) Por parte da potência afetiva,
a) em uma deleitação sensível que responde à sensação, e
b) em certa deleitação intelectual imperfeita, mas espontânea, que segue à apreensão intelectual do fato em questão;
II - Continua depois com:
A) um sentimento de admiração que perdura enquanto o homem conhece o efeito e ignora sua causa que deve ser grande; donde, excitado pela deleitação anteriormente dita
B) passa logo a investigar com afã aquela causa, sem descansar até que a alcança; e finalmente
III - o movimento termina:
A) no pleno conhecimento, por parte da inteligência, e;
B) na plena quietude e deleitação, por parte da vontade.
Paulo Barbosa.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A CIÊNCIA GREGA E SUA CLASSIFICAÇÃO ARISTOTÉLICA

A ciência para os gregos é definida como "a explicação de todas as coisas pelas suas causas", sendo o mundo real um 'cosmos', um todo ordenado e esta ordem é racional podendo ser compreendida pela inteligência humana; é uma ordem de causalidade, tão ajustada, que a explicação de todo acontecimento se encontra nas suas causas. Estes são os princípios que regem a ciência grega. A investigação científica, portanto, se apóia nos fatos e se esforça por subir até ao cimo da escala das causas.
Aristóteles ensina que a razão humana descobre gradualmente a realidade, passando sucessivamente a gêneros de objetos diferentes. O universo material começa por se nos manifestar com seus caracteres sensíveis, sumetidos ao movimento e ao tempo, constituindo desta forma o objeto da Física. Se fizermos abstração do movimento e do tempo para considerar nos corpos somente o seu aspecto quantitativo, obtemos o objeto da Matemática. É necessário notar que as coisas materiais, consideradas na sua realidade, são seres, substâncias e apreendemos estes aspectos pela razão e não pelos sentidos, pois estes atingem só as qualidades no tempo e no espaço. Por essa consideração do ser enquanto ser, separamo-nos do sensível como tal, embora a coisa considerada seja sensível. Este ponto de vista permite atingir e englobar num mesmo estudo, além dos grupo das coisas materiais, um outro gênero de realidades, o grupo dos seres não sensíveis, positivamente imateriais, que abrange o ser divino, objetos da Filosofia Primeira ou Metafísica. Esta ocupa-se, pois, com os seres sensíveis enquanto seres, no seu aspecto puramente inteligível, e com os seres que os sentidos não podem em nenhum caso perceber, acessíveis apenas à razão. É chamada também "Teologia" natural por ser Deus seu objeto principal.
Nesta classificação aristotélica cada ciência particular deve encontrar o seu lugar enquanto contribui para a intelecção do universo.
Paulo Barbosa.

sábado, 1 de agosto de 2009

MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS: ADVOGADO, ANARQUISTA E INVENTOR DA 'FILOSOFIA CONCRETA"

Mário Ferreira dos Santos (1907-1968), professor e publicista brasileiro, nascido em Tietê, São Paulo, foi autor de uma vasta e desigual obra, de sabor sincrético, confluindo influências de Santo Tomás de Aquino, Nietzsche, Hegel, Stirner e notabilizando-se como tradutor da obra nietzscheana. Era formado em direito, autodidata em filosofia e adepto, no campo político, do anarquismo mitigado. Usava o pseudônimo de Dan Andersen e com este publicou duas mensagens anarquistas: "Se a esfinge falasse..." e "A realidade do homem".
É criador de um sistema filosófico denominado "Filosofia Concreta", "uma matematização da filosofia, fundada em juízos apodíticos, universalmente válidos, que decorrem segundo o nosso método dialético, uns dos outros, com o máximo rigor, em busca de positividades" ("Filosofia Concreta, Prefácio") e explica que "entende-se comumente por concreto a representação que corresponde a algum ser real, captado pela intuição sensível" (ib.).
Em seu primeiro livro "Filosofia e cosmovisão", dividido em duas partes, uma, a introdução à filosofia geral, outra, a cosmovisão, defende o método fenomenológico de Husserl, Hessen, e Pfander e faz paralelo entre a filosofia ocidental e a oriental, taxando a ocidental de especulativa, desinteressada, sem um fim fora de si mesma, enquanto o Oriente é místico, porém possuindo filósofos objetivos, havendo apenas, entre ambas filosofias, uma distinção de grau, concluindo "que é muito mais ampla do que se pensa a contribuição oriental ao pensamento grego" (ib).
Na obra "Lógica e dialética" propugna uma lógica concreta, que seja includente, não dispensando a lógica aristotélica, mas buscando concrecioná-la.
Ensina em "O homem perante o infinito" ser "o bem positivo e o mal também o é; o dualismo do bem e do mal..." afirmação típica do gnosticismo dualista oriental.
Vários são, pois, os vícios desta filosofia concreta, matematizada e pitagórica, que visa ter a mesma certeza que a geometria em suas proposições, começando pelo neo-positivismo, quando aceita somente "positividades", ou seja, aquilo que exclusivamente pode ser provado pela experiência, o que equivale a rejeitar às questões ou fórmulas metafísicas como desprovidas de sentido, porque não se submetem aos sentidos; o método fenomenológico, subjetivista, kantiano, mediante o qual se coloca entre parênteses a realidade do mundo natural, o senso comum, as proposições científicas, pela epoché, que possibilita desta maneira à consciência ater-se ao dado enquanto tal e descrevê-lo em sua pureza, desembocando assim no intuicionismo como fonte principal de conhecimento, pelo qual o homem capta diretamente a realidade de algo individual existente, que se mostra imediatamente em sua concreta plenitude, negando desta forma o conhecimento abstrativo, próprio do homem, que prescinde da presença viva do conhecido.
Ao afirmar que houve contribuição do pensamento oriental ao pensamento grego, afirma uma tese controvertida ainda não provada com suficiência, como também é sumária e pouco convincente a equiparação dos pensamentos ocidental e oriental, que se distinguem, a seu ver, apenas em 'grau' e não em essência, pois, tal influência teria sido impossível por jamais ter havido filosofia na acepção estrita do termo no Oriente, próximo ou remoto. O que se chama filosofia ou sabedoria oriental não passa de um acervo de falsas doutrinas, irracionais em sua maioria, como o panteísmo, monismo, pan-psiquismo, gnosticismo, etc.
Enfim, a definição que dá do mal, como ser positivo, existência concreta, e não como a privação de um bem devido num sujeito que o devia possuir, é mostra clara da infecção gnóstica dualista desta filosofia que, por muitos que se confessam seguidores dos ideais clássicos e objetivos e até mesmo tomistas, é tida no Brasil como verdadeira filosofia, exaltando o Sr. Mário Ferreira como filósofo autêntico, realista, submisso à verdade objetiva, quando ele mesmo declarou: "Procuramos nessa obra expor idéias nossas, genuinamente nossas, concrecionando o que de positivo outras doutrinas expuseram, mas obra, em sua arquitetônica, totalmente nossa, afrontando assim, o espírito colonialista passivo de muitos brasileiros, que não crêem, não admitem e não toleram que alguns tenham a petulância de formular pensamentos próprios" ("Lógica e dialética, Prefácio"). Vê-se aí a petulância de Sr. Mário Ferreira ao apresentar pensamentos seus, idéias suas, genuinamente suas, na fabricação de mais uma pseudo-filosofia com lustres de científica, almejando abarcar somente dados empiricamente comprovados, mas por outro lado aceitando a gnose oriental como filosofia autêntica, e filosofia que deveria iluminar o Ocidente. Realmente, na História, sempre o Racionalismo esteve aliado ao Irracionalismo, como as duas cabeças da serpente, no caduceu de Hermes.
Paulo Barbosa.