Duplo é o fim da arte, um próximo e outro remoto ou último. O fim próximo de qualquer obra de arte - poesia, música, pintura, arquitetura, escultura - é a própria expressão da beleza, ou seja, é um fim estético, e é nisto que a arte se diferencia tanto da ciência quanto da ética, que têm respectivamente por objeto a verdade e o bem, e também da eloquência e da história, que embora possam ter formas estéticas, têm em vista, sobretudo, a convicção da inteligência e a moção da vontade.
O fim último da arte, mais alto que o primeiro, é a perfeição moral do homem. Santo Tomás de Aquino é bem claro quanto a isto ao afirmar que "Omnes scientiae et artes ordinantur ad unum, scilicet ad hominis perfectionem (In Met. Arist., Proem.) "Todas as ciências e artes ordenam-se para um só fim, a saber, a perfeição do homem".
Sabido, pois, qual o fim último da arte, podemos encarar a famosa fórmula "a arte para a arte" ou "a arte pela arte" de duas maneiras, uma aceitável, outra condenável.
Se se quiser expressar com a fórmula que a beleza agrada pelo seu conhecimento, então exprime uma verdade e é aceitável. Porém, se "a arte pela arte" quer significar que a arte deve ser autônoma, independente, que seu fim não deve estar subordinado a um fim superior, e que por isso, basta representar uma beleza exterior , embora embaixo desta exterioridade se esconda a torpeza, a imoralidade, a impiedade, então a famosa fórmula deve ser rejeitada com todo empenho pelo homem reto e de bem. Isto é assim devido a que a torpeza, a imoralidade, a impiedade são desordens, desafinos, e enquanto tais não têm direito de representatividade. Por outro lado, a beleza é ordem e harmonia, incompatível, pois, com aqueles.
Paulo Barbosa.