terça-feira, 5 de julho de 2011

O DUPLO FIM DA ARTE E O ADÁGIO "A ARTE PELA ARTE"

Duplo é o fim da arte, um próximo e outro remoto ou último. O fim próximo de qualquer obra de arte - poesia, música, pintura, arquitetura, escultura - é a própria expressão da beleza, ou seja, é um fim estético, e é nisto que a arte se diferencia tanto da ciência quanto da ética, que têm respectivamente por objeto a verdade e o bem, e também da eloquência e da história, que embora possam ter formas estéticas, têm em vista, sobretudo, a convicção da inteligência e a moção da vontade.

O fim último da arte, mais alto que o primeiro, é a perfeição moral do homem. Santo Tomás de Aquino é bem claro quanto a isto ao afirmar que "Omnes scientiae et artes ordinantur ad unum, scilicet ad hominis perfectionem (In Met. Arist., Proem.) "Todas as ciências e artes ordenam-se para um só fim, a saber, a perfeição do homem".

Sabido, pois, qual o fim último da arte, podemos encarar a famosa fórmula "a arte para a arte" ou "a arte pela arte" de duas maneiras, uma aceitável, outra condenável.

Se se quiser expressar com a fórmula que a beleza agrada pelo seu conhecimento, então exprime uma verdade e é aceitável. Porém, se "a arte pela arte" quer significar que a arte deve ser autônoma, independente, que seu fim não deve estar subordinado a um fim superior, e que por isso, basta representar uma beleza exterior , embora embaixo desta exterioridade se esconda a torpeza, a imoralidade, a impiedade, então a famosa fórmula deve ser rejeitada com todo empenho pelo homem reto e de bem. Isto é assim devido a que a torpeza, a imoralidade, a impiedade são desordens, desafinos, e enquanto tais não têm direito de representatividade. Por outro lado, a beleza é ordem e harmonia, incompatível, pois, com aqueles.
Paulo Barbosa.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O ELÃ VITAL NO SISTEMA BERGSONIANO

O ELÃ VITAL, no sistema filosófico de Henri Bergson, é nada menos do que a consciência que penetrou na matéria e a organizou, realizando desta maneira o mundo orgânico em que vivemos. É a causa original da vida, transmitido de geração em geração, ou, conforme a Evolução Criadora, "de uma geração de germes para a geração seguinte, por intermédio dos organismos desenvolvidos, que funcionam como traço de união entre os germes. Conserva-se nas linhas evolutivas entre as quais se divide e é a causa profunda das variações, pelo menos daquelas que se transmitem regularmente, que se adicionam e que criam espécies novas".

A mesma sociedade, ou seja, a sua formação, que antes era fechada e depois passou a aberta, e a religião, antes fabuladora e depois dinâmica, são criações do elã vital, da consciência imersa na matéria.

O elã, entretanto, é finito, limitado, e foi dado de uma vez por todas, não podendo também superar todos os obstáculos.
Paulo Barbosa.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

HEIDDEGER: NÃO E NÃO!


Martin Heiddeger (1899-1976), pensador alemão, acreditado como filósofo em muitos ambientes, elogiado por muitos, mesmo tendo sido adepto convicto do hitlerismo, apelava para a 'angústia' com a finalidade de descobrir o Nada. Num confronto radical com a realidade, com o bom senso, este senhor germânico elegeu um sentimento, a angústia, para desempenhar o papel que somente cabe à razão especulativa. Esta, por sua vez, deve ser destruída, anulada, não para ceder lugar à fé, mas para permitir que algo estranho e alheio à ela desempenhe seu papel.

No fundo, o que Heiddeger começou - o desprezo pela razão, a sua quarentena -, tornou-se a característica ou um dos sinais principais da modernidade, dos nossos dias, visíveis até mesmo nos centros acadêmicos, nas universidades.

Ao se esbarrar com problemas ou questões capitais para a vida humana, a razão deve se calar e o homem ficar sem resposta, segundo o heiddegerismo. O bom senso exclama: Loucura! Mas o nazista alemão pergunta: "se a loucura não deve terminar nunca por ter razão contra a razão"? E eis nossa sociedade repleta de loucos e desvairados, repleta de exigências de cidadania para a loucura. Parece que venceu o germânico, mas em detrimento do homem orgânico e da sociedade por este constituída.

Poderia a angústia, o desespero, bastar para se construir todo um sistema filosófico? O desespero, que outra coisa não é do que a falência da razão que repugna Deus e a sua Igreja Católica, é o cerne e a matéria desta nova filosofia, filosofia que há de ser tida por verdadeira, baseada por um lado num materialismo e ateísmo declarados e por outro na propalada autonomia total do homem moderno e na pretensão de 'mudar o homem', este homem que fora desvirtuado pelo capitalismo e pelo cristianismo católico e que, por isso, deve ser reintegrado na posse de sua faculdade primordial, a liberdade, e na sua soberana natureza.

Pobre homem moderno!
Paulo Barbosa.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

O SER DA FORMA, UM POUCO DE METAFÍSICA

Aprende-se em Metafísica que todo ser finito é composto de matéria e forma, a primeira aquilo de que é feito a coisa, e a forma, aquilo que determina a matéria, que lhe dá feições e o ser. Forma dat esse, segundo os escolásticos.

Mas qual o ser da forma? A forma substancial ou o ato primeiro da matéria não é um ser, pois se o fosse, deveria ser constituído de matéria e forma, e assim ao infinito. Na realidade, a forma substancial é princípio do ser, porém a título superior ao da matéria, devido a ser ela que confere o ser substancial à matéria. É mediante a forma que a matéria se determina, se torna uma essência definida, algo de determinado.

Disto se depreende que, mesmo que a forma substancial do corpo - o que denomina-se alma -, como a matéria também, não seja um ser, ela, a alma, tem realmente mais ser do que a matéria. Nem mesmo a forma é necessariamente o ato de uma matéria, ou o princípio de ser de uma matéria, pois se não podemos conceber alguma matéria prima subsistindo sem forma, pode-se perfeitamente conceber uma forma sem matéria, por ser a forma, de si mesma, ato. A alma humana, por exemplo, pode subsistir sem a matéria após desta ser destacada, e os filósofos mesmo chegam a conclusões de que existem substâncias separadas da matéria que não sejam a alma humana, e que a religião denomina Anjo.
Paulo Barbosa.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

VONTADE: APETITE RACIONAL DIFERENTE DO INSTINTO

A vontade é definida pelos filósofos como sendo um apetite ou inclinação racional, e, conforme Aristóteles, apetite penetrado de inteligência, ou melhor, inteligência penetrada de apetite. A definição escolástica de vontade é "Appetitus rationalis sequens intellectum seu tendens in objecta ab intellectu proposita", "Apetite racional que segue o intelecto ou tende para objetos propostos pelo intelecto". 

Depreende-se, pois, disto, que a razão humana, a um tempo é inteligência e vontade, miscigenando, se assim podemos dizer, ambos.

Disto também segue-se que é diferente a vontade humana, perpassada de inteligência, da impulsão do instinto animal, pois a vontade racional, sendo atividade imbuída de inteligência, apreende um objeto sub specie boni, ou seja, representado-o não simplesmente como suscetível de satisfazer uma determinada tendência ou apetite, mas também como significando um grau de apetibilidade ou de bem. A impulsão instintiva, por sua vez, é limitada à uma representação sensível, apreendendo o objeto somente sob o prisma em que este responde ao 'aqui e agora' a um apetite determinado, e por esse fato, a ação segue automaticamente a representação. 

Erra, portando, quem afirma ser a vontade humana - e a inteligência - da mesma natureza da do animal infra-humano, equiparando, num ato de ignorância crassa e pós-moderna - apetite perpassado de inteligência com impulsão instintiva infra-intelectual.
Paulo Barbosa.

terça-feira, 28 de junho de 2011

O ESCRAVIDÃO NA CONCEPÇÃO DE ARISTÓTELES E TOMÁS DE AQUINO


Os escravos, na Antiguidade, eram tidos por entes ou seres que não participavam da natureza humana, ou seja, não possuíam personalidade. Eram res, non persona, coisa, não pessoa. A maior parte do trabalho naquele tempo era executado por eles, mas nunca eram proprietários dos frutos de seu labor. Recebiam o pecúlio, pequeno rebanho que se lhe concedia como um estimulante do trabalho e a comida. 

Os filósofos antigos, entretanto, justificavam a escravidão como algo decorrente da natureza, com o argumento de que servia ou era útil não só ao senhor como também ao escravo. Aristóteles a considerava como uma das divisões naturais da sociedade, semelhante à divisão entre homem e mulher. Segundo o Filósofo, existem homens 'que naturalmente são dispostos a mandar' e homens 'que naturalmente são dispostos à obediência' e é graças à união que 'ambos podem sobreviver'. Por esse motivo conclui que a escravidão 'é vantajosa tanto para o senhor quanto para o escravo' (Política, I, 2, 1552 a).

Com o advento do Cristianismo a concepção de ser a escravatura algo natural mudou e Santo Tomás de Aquino é enfático quando declara "que um homem seja escravo e outro não, é coisa que, de um ponto de vista absoluto, não tem razão natural, mas só razão de utilidade, porquanto é útil ao escravo ser governado por um homem mais prudente, e é útil a este último ser auxiliado pelo escravo" (Suma Teológica II, 2, q. 57, a. 3, ad 2º). Não é natural ou decorrente da natureza o ser escravo, portanto, mas pode ser útil e para ambos, onde prestam-se auxílio mútuo, segundo o Aquinate.

Paulo Barbosa.