A capacidade de sutilmente apreender o lado jocoso das coisas para narrá-las e produzir o riso, também fazia parte do dia a dia do Povo Romano. A característica ou faceta peculiar, porém, do humorismo romano, era a sátira, isto é, a ridicularização de pessoas, instituições ou coisas, e não a pilhéria fina e aliciante. Era o satírico a arma que os humoristas romanos mais habilmente brandiram, aflorando-lhes ao bico da pena com uma facilidade tal como os hexâmetros e pentamêtros surgiam ao poeta Ovídio. O riso do Romano era estritamente um sarcasmo, pois não sabia rir sem comentários maldosos, impregnados de intenções de menosprezar ou magoar instituições ou pessoas. Eram humoristas que gostavam de rir à custa alheia. A sátira humorística chegou mesmo a ser instrumento de moralidade pública e de transmissão da verdade, como se depreende dos conhecidíssimos provérbios 'Ridendo castigat mores, rindo, castiga os costumes', e 'Ridendo dicere verum, rindo, dizer a verdade'. Apesar de ter sido cultivada bem antes pelos gregos, é o gênero satírico bem apropriado ao temperamento do homem Romano, podendo mesmo afirmar que é a modalidade própria da expressão jocosa deste tipo humano.
Era tão arraigado neste povo a inclinação para o chiste e para a troça, tão penetrado do instinto do cômico, que diziam preferir perder um amigo, a perder uma piada, um dito espirituoso: "Potius amicum quam dictum perdidi, antes perder um amigo do que uma piada".
CARACTERÍSTICAS GERAIS DO ROMANO
O povo do Lácio era rude e obstinado, afeito às batalhas, dado aos duros trabalhos dos campos, submisso às mais rígidas disciplinas, seja militar, seja agrícola, mas não tinha a língua refreada, era um povo desbocado, sendo-lhe congênita a maledicência vulgar que a ninguém salvava, a ponto de Cícero perguntar "Quem poderá estar seguro numa cidade tão maledicente, in tam maledicta civitate?". Era também um povo sério, e muitas vezes abusaram da seriedade convertendo-a em severidade cruel, expandindo-se sim no riso, mas transformando-o, frequentemente, em bisturi dilacerante da honra alheia.
ALGUMAS ESPÉCIMENS DO HUMORISMO ROMANO
FELIPE, O GRANDE E O POETA CATULO
Numa ocasião, Felipe da Macedônia irritou-se com Catulo por este gritar demasiado alto e, com duas palavras, chamou-lhe de cão: Cur latras? - Que estás por aí a ladrar? Ao que o poeta Romano, incisivo e causticante, lhe respondeu: Furem video, É que vejo um ladrão.
MARCO TÚLIO CÍCERO E LÊNTULO
Certo dia, Cícero viu passar Lêntulo, seu genro, fardado de militar, todo apertado, com a espada à cinta quase a bater nos pés. Surpreendido, perguntou: "Quem é que atou o meu genro àquela espada?".
QUINTO CÍCERO E SEU BUSTO
Quinto Cícero, irmão do grande orador Romano Marco Túlio, era pequeno de estatura. Mordido pela vaidade e estimulado pela moda da época, quis o seu busto representado em proporções dantestcas num magnífico escudo. Ao contemplar o gigantesco busto do irmão, Cícero exclamou: "A metade do meu irmão é maior que o seu todo".
IMPERADOR ADRIANO E O PEDINTE
A feiura sempre foi alvo de frequente ironia satírica dos Romanos. Um indivíduo apresentou-se certo dia a Adriano para lhe fazer um pedido. Como o Imperador não lhe atendeu, pensou o pedinte que era por ter os cabelos já brancos. Foi para casa, pintou os cabelos de preto e retornou à presença de Adriano. Este, ao reconhecê-lo, retorquiu-lhe: "Mas eu já disse que não ao teu pai".
CÍCERO E FÁBIA
Uma dama romana, Fábia Dolabela, vangloriava-se, na presença de Cícero, de ter apenas trinta anos de idade, quando na realidade tinha já cincoenta. O orador respondeu-lhe: "É verdade, porque já há vinte anos lhe ouvi dizer isso mesmo".
CÍCERO E UM CONTEMPORÂNEO SEU
Numa outra ocasião, vendo Cícero que um seu contemporâneo se fazia passar por muito mais novo do que era, observou-lhe: "Então, quando declamávamos juntos, tu ainda não tinhas nascido: tu ergo, cum una declamabamus, non eras natus!".
UM POUCO SOBRE O RISO EM GERAL...
Dizia um sábio que os povos assemelham-se no chorar e diferenciam-se no rir. O riso é distintivo de povo e de classe social, pois cada povo ri à sua maneira, da mesma forma que as diferentes classes. Uns, comedidamente, riem com uma sutil facécia, enquanto outros com estridente e grosseira gargalhada.
Pontifica a Filosofia que o riso é uma das qualidades inerentes ao homem, fazendo-o se distinguir das demais criaturas. É, pois, o homem, o único animal que ri e chora.
Os cavalos de Aquiles, Xanto e Bálio, que dizem terem derramado lágrimas pela morte de Pátroclo, tais lágrimas não passam, porém, da fabulosa imaginação de um Homero.
Enfim, a mais bela e completa apologia do riso, Frank Irving Fletcher deixou para a posteridade nesta bela sentença:
"O sorriso não custa nada, mas rende muito. Enriquece a quem o recebe, sem empobrecer a quem o dá. Vem num abrir e fechar de olhos, e a sua recordação dura, às vezes, para sempre. Cria a felicidade do lar, alenta a boa vontade nos negócios e é o cartão de visita dos amigos. É descanso para os cansados, luz para os decepcionados, sol para os tristes, e o melhor antídoto contra as preocupações.
Mas não pode ser comprado, nem pedido, nem emprestado, nem roubado, porque é uma coisa que não serve para ninguém, se não se dá espontânea e gratuitamente. Ninguém precisa tanto de um sorriso, como aquele que o não tem para dar. Por isso, se não lhe sorriem a si, sorria você para os outros" (cf. How to win friends and influence people).
E Hans-Chr. Oeser arremata muito bem ao proclamar que "para quem já não pode sorrir, a vida perdeu a sua alegria e a sua frescura".
Paulo Barbosa.
Um comentário:
Paulo, parabéns pela postagem. Ficou excelente! Eu também acredito muito no poder do Riso, tanto que me dedico à divulgar os seus benefícios, tendo fundado o Espaço do Riso, que fica na R. Leite de Morais, 42 - sala 17 ao lado do Metrô Santana, na zona norte da cidade de São Paulo. Visite também meu blog ESPAÇO DO RISO no http://doutorrisadinha.blogspot.com e conheça um pouco mais sobre esta minha missão de vida.
Abraços, SORRIA E TENHA UM BOM DIA
Marcelo Pinto (Doutor Risadinha)
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